Reformas, reformas, reformas

Nos últimos meses a palavra “reforma” tem aparecido com frequência em jornais, telejornais, mídias sociais e discussões acadêmicas. Como em tão pouco tempo o governo anunciou e efetivou através dos seus pares na Câmara dos Deputados e no Senado Federal propostas que dependeriam de um debate amplo e aprofundado com os setores que serão mais atingidos por estas mudanças.

Da maneira como as coisas são processadas em Brasília, principalmente pela grande rapidez, há de se entender que os interesses que estão por trás de alterações tão expressivas pressionam e exigem retorno pelo apoio dado a este governo. Não é de se estranhar que em todas as articulações promovidas no interior do Congresso, as alianças e a consolidação das votações de “urgência” o número de votos obtidos dá margem de segurança para a aprovação no Senado e consequente aprovação presidencial.

Como as três grandes reformar mascaram a que verdadeiramente deveria ocorrer com urgência: a Reforma Política.

Outro ponto a se considerar são as votações que eliminam as punições e aquelas que tornam o “caixa dois” uma atividade legal não passível, portanto, de punições. A indicação de Moreira Franco à vaga de Alexandre de Moraes no Ministério da Justiça, a indicação de Alexandre de Morais ao STF. É um jogo de cartas marcadas, com algumas estratégias, mas nada que surpreenda. Quem sabe as reais intenções deste governo e entende o papel que ele vem cumprindo ao longo dos últimos meses não se surpreende com tais nomeações e atitudes. É de se esperar que um governo que subiu ao poder da forma como subiu precise se proteger e garantir que as investigações da Lava Jato e a crise carcerária espalhada pelo país não resvale em si.

Milhões de reais foram despejados em propaganda. As grandes empresas midiáticas do país, que cumpriram seu papel no golpe, receberam quantias extravagantes para propagandear nos seus principais veículos de comunicação as “maravilhas das reformas”. Você liga a televisão e lá vem a propaganda do Governo Federal sobre a Reforma do Ensino Médio com jovens de todas as etnias com frases de impacto e sorrisos no rosto anunciando os benefícios das mudanças. Ainda tem a coragem de dizer que países como a Inglaterra adotam esse mesmo sistema educacional. Oras! Não somos a Inglaterra! Não dá para fazer esse tipo de comparação a fim de dizer que nos tornaremos iguais. Vivi alguns meses na Inglaterra e fazendo parte do cotidiano da cidade de Londres vi bem a dinâmica de atividades e a estrutura educacional oferecida aos ingleses. Bibliotecas, museus, transporte de qualidade e opções na grade que são pensadas para compor uma lógica de formação.

No Brasil a única lógica é formar para o trabalho. Qualificar adolescentes para adentrar um mercado de trabalho fissurado e precarizado pela flexibilização das leis trabalhistas e pelo assassinato dos direitos sociais. Formar e qualificar jovens para um “primeiro emprego” precário. As propagandas em prol da reforma do ensino médio têm inclusive desmerecido a formação universitária. Várias são as entrevistas onde se propala que é melhor fazer um curso técnico do que uma graduação. O país demorou séculos para permitir que a classe mais pobre adentrasse a esfera universitária e quando essa possibilidade se concretiza o país faz esse retorno brusco para as premissas presentes lá na década de 1990 quando vivíamos a Abertura Comercial e a reestruturação da política e da economia para linha neoliberal.

A reforma previdenciária é outra situação complicada. Estudiosos de todas as linhas vem se confrontando em busca da argumentação jurídica e econômica de tal mudança. Muitos já provaram que a previdência precisa sim ser ajustada, mas que o ônus deste ajuste não precisa ser colocado na conta do trabalhador. E pior. Se o trabalhador brasileiro estiver descontente com o serviço prestado pelo governo ele não tem a opção de migrar para uma previdência privada mais atraente. Estamos presos às decisões do governo. Nós que contribuímos há anos estamos prestes a pagar e não receber. Estamos prestes a pagar e receber bem menos do que foi investido. Estamos prestes a perder aquela garantia que lutamos a vida toda para constituir. Para os nossos deputados, senadores e presidente é fácil mexer em algo que não lhes afeta. As garantias que eles obtém por conta do cargo que ocupam são fantásticas! Além dos altos salários e das verbas de gabinete, carros, passagens aéreas e hospedagem, auxílio moradia, auxílio terno e tantas coisinhas mais a aposentadoria rápida e integral está garantida pela Constituição.

Sobre a reforma trabalhista são muitos os pontos que devem ser observados. Fala-se muito de que as regras que versam sobre esse tema são da década de 1940 e que, portanto, estão ultrapassadas. Se enganam aqueles que pesam assim. Naquele tempo as leis eram formuladas baseadas em perspectivas filosóficas e com base em um Direito que considerava as dimensões da lei. As pessoas envolvidas no processo de formulação, votação e aplicação da Lei eram todos profundos conhecedores das letras. É neste sentido que a Legislação trabalhista sobreviveu por tanto tempo. Hoje qualquer um faz e desfaz leis. Muitos sem qualquer conhecimento de causa e dos impactos que uma mudança pode ocasionar. Tudo em nome das pressões de quem os financia. Nada em nome do povo como o Estado deveria representar.

O mundo do trabalho caminha para uma total flexibilização de suas leis e a consolidação de novas modalidades de trabalho sem qualquer proteção social. Em muitos países como Inglaterra e Japão o trabalho “zero hora” e os temporários são realidade. No Brasil estamos vivendo essa transição e a efetivação de algo bastante semelhante. Carteira de trabalho, FGTS e aposentadoria serão histórias que só alguns poderão contar. O mercado de trabalho proposto terá rebaixamento salarial e pessoas altamente qualificadas exercendo funções não aderentes à sua formação. Trabalharemos para sobreviver. Trabalharemos mais e seremos mais vítimas das doenças associadas ao trabalho. Não haverá mais carreira: aquela história de que teremos uma trajetória de sucesso dentro de uma empresa será para poucos. E todas essas mudanças desembocam, necessariamente, na nossa qualidade de vida, no acesso a cultura e lazer, no acesso ao transporte e à moradia. É um castelo de cartas que vai desmoronando e os culpados disso venderão a imagem de “vítimas do mercado”. O mercado é um ser que ninguém enxerga, um monstro que ceifa a vida das pessoas, mas que não pode ser detido. Por detrás desse monstro incontrolável estão os verdadeiros responsáveis. As grandes empresas e seu aliado mais fiel, o governo.

E quem é aliado do povo? O povo, nas suas múltiplas dimensões, precisa urgentemente se entender como classe. Precisa superar tudo aquilo que a fragmenta. precisa superar suas próprias contradições porque só o povo será capaz de resistir, evitar e mudar esse estado de coisas que está em curso. Mas temos algo importante contra: se as grandes empresas midiáticas formam a opinião pública e a reforma do ensino médio retira as disciplinas com teor crítico-filosófico como seremos capazes de criar as condições de superação da massificação que sofremos diariamente?

Algumas grandes iniciativas estão ai! Movimentos sociais, jovens e adultos que têm destacada participação em comunidades acadêmicas e em seus bairros. Mulheres e homens que tem juntado forças na luta contra todo tipo de opressão. É uma luta dura e muitas vezes desleal. Mas numa sociedade multifacetada e instigada pelo ódio a resistência não é opção, é necessidade.

Da redação.

 

80 anos de Guernica

guernica-pablo-picassoO grande pintor Pablo Picasso, certa vez, afirmou que o quadro por ele pintado não era uma obra de decoração. Guernica tinha um papel muito mais profundo diante do cenário político do qual foi fruto. Era um símbolo e uma resposta contra a guerra e violência. A célebre pintura expressa o bárbaro bombardeio aéreo realizado pela esquadra alemã nazista (Legião Condor) apoiadores de Franco na cidade basca de Guernica na Espanha em 26 de abril de 1937, durante a Guerra Civil Espanhola.

Do ponto de vista da arte, Guernica figura entre as obras cubistas mais conhecidas no mundo. Até o ano de 1981 o quadro pôde ser visto no MoMa (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque) quando, a pedido do próprio artista, ele foi devolvido à Espanha. Atualmente ele se encontra exposto no Museu Reina Sofia na cidade de Madri.

O contexto histórico é fundamental para que possamos compreender as imagens retratadas por Picasso. A escolha das cores, o preto e o branco, é uma opção que expressa o drama das inúmeras mortes e da destruição.

Dois símbolos estão em destaque no quadro. O cavalo e o touro compõem os elementos da cultura popular espanhola e a agonia pintada explica a tentativa de destruir esses ideais populares. Um soldado morto no chão e a mãe chorando sua morte, uma casa em chamas e uma mulher em desespero, feridos, desespero. Os componentes do quadro expressam individual e  coletivamente o drama e a derrota de um povo.

Guernica sempre nos lembrará os horrores da guerra e da desumanidade daqueles que só vislumbram o poder.

A confusão dos nossos dias: quando o ódio supera a ética

Nesta semana fiquei incomodada com os comentários e manifestações de ódio direcionados ao ex-presidente Lula e sua esposa Marisa Letícia. Duplamente vitimada: primeiro por AVC hemorrágico que causou sua morte; segundo pelo vazamento de informações médicas sigilosas, manifestações de ódio em frente ao hospital e por uma enxurrada de mensagens nas redes sociais que ansiavam pelo seu sofrimento e de seus familiares. Fiquei particularmente impressionada. Não porque eu não soubesse o grau que a raiva pode atingir. Mas por como as pessoas têm confundido, misturado e transformado suas convicções políticas em atos desumanos.

Nessa terra ex-colônia, do pungente patriarcado, do racismo e da misoginia, do machismo e do revigorado fascismo, a opinião pública formada pelos padrões globais, compraram a ideia de um inimigo que precisa ser eliminado. E sua eliminação não deve ser apenas política. Ele precisa ser desmoralizado. Os pesos e medidas diferentes  usados no tratamento midiático em relação a Lula é completamente desmedido se comparado com outros políticos citados múltiplas vezes nas delações da Lava Jato. O Partido dos Trabalhadores passou a ser o alvo predileto de todos. Da opinião pública porque dirige a ele toda sua frustração em relação a crise institucional e econômica que vive o país e dos outros partidos que se protegem atrás desse algo e, com o apoio da grande imprensa desvia o foco, não atiça a memória, não aparece, então não existe. A corrupção iniciada nos tempos de Pedro Álvares Cabral, parte da economia mundial, moeda de troca e de barganha desde que o mundo é mundo, hoje, virou “culpa” de um só partido.

A forma seletiva com que tratamos os problemas do país ficou ainda mais escancarada nos últimos anos. Até as brigas em família ganharam um componente a mais. Os professores de história vivaram os inimigos da família tradicional brasileira. Os monstros foram criados e precisavam ser combatidos. Ressuscitaram o “perigo vermelho” e as feministas viraram as ‘bruxas da vez”.

Que desvio de foco. Liberdade de expressão, de posicionamento, seja lá de qual tipo de liberdade podemos falar. Uma democracia, mesmo que recente, deveria garantir sua existência. Mas nas democracias burguesas ela apenas sobrevive para manter teoricamente sua existência e em momentos como esse respira por aparelhos e colocamos em risco os direitos políticos e sociais que deveriam ser inalienáveis.

Em nome do capital o sistema jurídico é redimensionado. Em nome do capital a previdência social e as leis trabalhistas são alteradas. Em nome dele, ainda, o jovem ingressa no mercado de trabalho cada vez mais cedo e cada vez menos qualificado ou sem a chance de cursar o ensino superior. Em nome do capital os espaços que deveriam ser ocupados por todos passam por novas restrições, uma nova exclusão que define lugar de pobre e lugar de rico e que consolida em suas ações o poder hegemônico do dinheiro.

E você gastando todo seu ódio com o Lula e com dona Marisa deixando todos os outros impunes. E você gastando seu vocabulário de ódio, usando seu precioso tempo para atacar alguns quando há uma corja que ri nas nossas costas, que fragilizam nossos direitos através de votações madrugada a dentro e no apagar das luzes. E nós trabalhadores, pobres e classe média, aqueles que vivem de salário: uns o mínimo, outros alguns mínimos a mais. Nós deveríamos estar juntos ecoando uma voz mais forte e não vozes fragmentadas. Tínhamos que ser um eco só.

Mas o peso do passado é um fardo grande demais para superarmos. A gente gosta de colocar a culpa em alguém. Normalmente é o pobre, o negro, a mulher, o índio “preguiçoso”, o moleque “malandro” e agora o aposentado que tem se transformado em alvo de críticas nos últimos meses. Parece que é “pecado” se aposentar. Compararam o aposentado brasileiro com o cantor Mick Jagger! Como e possível? Como aceitamos essa propaganda descarada que as revistas semanais tem feito à favor das reformas do governo Temer. Esquecem ou sequer sabem das vultuosas cifras que essas empresas midiáticas tem recebido do governo para convencer a opinião pública que suas “intenções” são “boas”.

Há uma cortina de fumaça nos olhos e nas mentes das pessoas. Pode ser medo também. O cenário é tão tenebroso que confrontá-lo seja muito complicado. E é! É uma batalha diária ler, atualizar informações, fundamentar posições e construir um posicionamento político. Dá trabalho. Não é como ler fofoca de novela. Não bastam as informações porque vindo de quem vem elas podem ser tendenciosas. Por isso é necessário discernimento para compreender o que as notícias significam, seus vieses, sua profundidade e aplicabilidade.

Se ainda assim seu alvo for apenas Lula não tem problema. Gostaria de te fazer refletir. Ele e seu partido merecem muitas críticas. Ninguém está protegendo ou evitando fazer as necessárias críticas. Mas precisamos aprender fazer as análises comparativas, saber observar por ângulos diferentes e colocar na roda todos aqueles que cotidianamente lesam o país.

Estamos lutando entre nós enquanto nossos verdadeiros inimigos se escondem. Estamos nos fragilizando enquanto eles se fortalecem. Vamos pensar como classe. Não podemos pensar como eles porque estamos do lado oposto. São posições antagônicas e irreconciliáveis.

Quanto às mensagens de ódio…. tem algo errado contigo se segue alguma fé. Tem algo errado contigo se sua ética só serve para alguns. A humanidade é desumana, mas ainda temos chance.

A redação.

Mestres do Renascimento – Obras-primas Italianas

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A exposição, com mais de cinquenta obras-primas provenientes de importantes coleções italianas, públicas e privadas, apresenta ao público brasileiro a extraordinária riqueza da arte italiana no momento de seu apogeu, o Renascimento. As obras expostas: pinturas, esculturas e desenhos, foram selecionadas com o intuito de mostrar aos visitantes o percurso do movimento renascentista em toda a Itália. Estão previstas obras de Rafael Sanzio, Ticiano, Sandro Botticelli, Lorenzo Lotto, Andrea Mantegna, Perugino, Tintoretto, Giovanni Bellini, Fra Bartolomeo, Ghirlandaio, Donatello, Dosso Dossi, Michelangelo Buonarroti, entre outros. Curadoria de Alessandro Delpriori.

http://www.renascimentonoccbb.com.br/

13 Jul a 23 Set
Local: Subsolo, 1º, 2º, 3º e 4º andares | CCBB SP
Horário: Quarta a segunda das 10h as 22h

“Transgressão e adaptação”

Belo livro do meu amigo Daniel Aurélio já está disponível pelo site http://www.livrariaixtlan.com.br Confiram!!!

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Daniel Rodrigues Aurélio é graduado em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e mestrando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). É pesquisador do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC/PUCSP), editor da revista Conhecimento Prático Filosofia e autor de Dossiê Getúlio Vargas (Universo dos Livros, 2009), entre outros livros. Blog: http://www.danielraurelio.blogspot.com