Londres: um termômetro social

Depois de acompanhar reportagens e mais reportagens, equívocos e mais equívocos analíticos na última semana sobre os acontecimentos ocorridos no bairro de Tottenham, em Londres cheguei a algumas conclusões não tão surpreendentes para aqueles que já me conhecem ou que estiveram comigo em algumas oportunidades em sala de aula.

Vândalos e marginais: assim foram denominados os jovens que insurgiram nas ruas do bairro de Tottenham. Bairro este que representa muito bem o multiculturalismo e a multietnicidade presentes na capital Inglesa. Há alguns meses atrás estava morando na cidade de Londres e apesar de reconhecer e me admirar com um espaço tão diversificado e aparentemente tranquilo pude perceber que as aparências representavam, na verdade, uma busca por reconhecimento. Cada espaço, habitado por múltiplas etnias, defendiam sua cultura e seu direito de expressão e convivência em que todos nós, estando ou não em sua terra natal, temos.

Os movimentos sociais no mundo inteiro têm sido criminalizados. Qualquer manifestação legítima contra as opressões políticas e sociais têm sido encaradas pela polícia e pelas mídias sociais de direita como uma afronta ao Estado e à ordem pública. Mas eles esquecem que a primeira violência parte deles mesmo. A falta de perspectivas para uma massa de excluídos tem ficado cada vez mais escancarada. Milhões e milhões de recursos são destinados para salvar empresas, para financiar obras privadas, fusões e aquisições, enquanto a sociedade, que agoniza com a falta de moradia, sistema de saúde adequado e escolas, continuam na fila de espera por investimentos.

É uma afronta imaginarmos que os esforços dos dirigentes mundiais estão destinados a salvaguardar os interesses do grande capital criando leis de incentivo, diminuindo impostos, oferecendo créditos e leis que viabilizam cada vez mais a acumulação irrestrita de capital em detrimento da miséria de tantos.

Essa violência não é denunciada pelas grandes emissoras de rádio e televisão e tão pouco encontramos em jornais de grande circulação. São as revistas alternativas e aquelas comprometidas com um debate sério sobre as perspectivas da sociedade que vêm fazendo o papel contrário e demonstrando que a lógica das manifestações que ocorreram em Londres não é fruto de vândalos e marginais e sim resultado de um capitalismo predador que impede o ser humano de ter liberdade, condições de sobreviver dignamente e que seja respeitado na sua diversidade.

Nos últimos meses a polícia londrina aumentou a vigilância em bairros como os de Tottenham. A Scotland Yard autorizou a revista de qualquer cidadão mesmo sem qualquer sinal de crime. O caráter intimidado da polícia, mais uma vez, matou (é sempre bom relembrarmos o assassinato do brasileiro Jean Charles no metrô de Londres). Desta vez matou um jovem de 29 anos chamado Mark Duggan, pai de quatro filhos.

O resultado desta violência praticada pela polícia foi o início de uma manifestação iniciada, primeiro, no distrito policial do bairro. Amigos e conhecidos da vítima queriam explicações sobre o ocorrido. Essas explicações não aconteceram e, a partir desta circunstância, desencadeou uma manifestação de maiores proporções no bairro e que todos puderam acompanhar as imagens pela televisão.

Esse tecido social que forma a comunidade de Tottenham reagiu. Reagiu contra a nevralgia do Estado e contra não apenas, a morte de mais um dos seus, mas contra um Estado incapaz de criar projetos sociais e ações políticas efetivas para atender a demanda de milhares de jovens excluídos pelo mercado de trabalho e impedidos de ter uma educação de qualidade. As manifestações tem um caráter para além da morte de Mark: elas revelam a falta de políticas públicas, o corte nas verbas destinadas a projetos sociais (como foi o caso uma semana antes das manifestações ocorridas em Tottenham) e contra uma crise econômica que destina seus males e mazelas para o lado mais frágil desse sistema opressor capitalista.

A Inglaterra, como muitos outros países europeus se aproveitaram da força-de-trabalho precarizada de milhares de pessoas durante anos, e ainda tiram vantagens disso, mas nos momentos de crise adora reverter a situação disseminando uma postura higienista e contrária a imigração. Essas novas tendências contra-imigratória e higienista tem revelado seu caráter cada vez mais vil. Renasce na Europa, com toda a força, um pensamento de “superioridade” e de “limpeza”. O capitalismo predatório, que fragmenta e precariza a vida do homem, faz renascer também a chama do preconceito e desperta nos homens o ódio pelos outros homens afastando dela própria o foco dos debates e das críticas.

O mundo atual procurou socializar os sucessos e individualizar os fracassos. E assim ninguém mais é cidadão, apenas indivíduo que carrega consigo as mazelas por ele produzidas. O mundo moderno oferece de tudo, mas as escolhas são sempre individuais. Por isso cada um é responsável pelo caminho que percorre e pelos sucessos e/ou fracassos que alcançam em suas vidas.

E essa regra subjetiva imposta pela sociedade do capitalismo predador (que tantos autores tão bem explicitaram) são os condicionantes de uma liberdade minúscula cujas escolhas são delimitadas à lógica do capital. E essa lógica que supostamente oferece liberdade de escolhas é a mesma que obstaculiza, cada vez mais, a emancipação humana.

Claro que toda esta discussão está inserida num debate muito maior. O impulso modernizante carregou e carrega uma série de instrumentos que é a reestruturação geral da sociedade. Essa reestruturação, quando chega na vida cotidiana, se expressa de múltiplas formas. Como o indivíduo reage aos produtos destas reestruturações?

“O nosso tempo é um tempo de cadeados, cercas de arame farpado, rondas dos bairros e vigilantes; e também de jornalistas de tabloides ‘investigativos’ que pescam conspirações para povoar de fantasmas o espaço público funestamente vazio de atores, conspirações suficientemente ferozes para liberar boa parte dos medos e ódios reprimidos em nome de novas causas plausíveis para o ‘Pânico moral’. Repito: há um grande e crescente abismo entre a condição de indivíduo de jure e suas chances de se tornar indivíduos de facto – isto é, de ganhar controle sobre seus destinos e tomar decisões que em verdade desejam” (BAUMAN, 48:2001).

De maneira geral o sistema capitalista imprimiu um contexto de novas relações que provocou a reação normal ou anormal, dentro ou fora da ordem, que explicitou a tênue linha existente entre liberdade teórica e liberdade real. E as respostas produzidas por estas reações nada mais são do que as respostas possíveis às demandas do homem. As respostas que os homens foram capazes de produzir foram aquelas possíveis dentro da lógica estabelecida. Romper com está lógica é romper com uma escala de tarefas objetivas e subjetivas só possíveis em coletividade. Por isto a tarefa de questionar a lógica do capitalismo é tão árdua e cheia de discordâncias. Muitos acham que “a vida é isso aí e salve-se quem puder” quando na verdade a vida vai muito mais além do que estamos acostumados a viver.

Por quantas vezes nos deparamos com textos de estudiosos que se propõem a denunciar a lógica dos mitos que a sociedade capitalista produz? E por quê?

Porque aquilo que aparenta benefício é, simplesmente, na essência mais um elemento da engrenagem que movimenta a roda dos interesses do capitalismo. E às voltas com seus interesses econômicos precarizar e fragmentar a vida humana se tornou prática cotidiana.

A opressão e a vida limítrofe na qual estamos “fadados” a viver é um dos combustíveis deste sistema. Antigamente, lê-se cerca de 20 anos, as maiores economias do mundo eram os “Estados Democraticamente Constituídos” e assim denominados pelas Organizações formadas por eles próprios. Hoje as maiores economias do mundo são empresas. Elas têm um fluxo de capital tão extraordinário que hoje são responsáveis pelas estabilizações financeiras de inúmeros países. São essas empresas que emprestam grandes quantias aos Estados que, em troca, prestam grandes quantias de “favores”.

As manifestações ocorridas no bairro de Tottenham, que se espalharam por toda Londres e que atingiram outras cidades de grande expressão na Inglaterra como Manchester e Liverpool são resultados das tensões, dos conflitos e, fundamentalmente, da grande dificuldade que as pessoas estão tendo para sobreviver nestas sociedades que salvam e resguardam os Direitos do grande capital em detrimento da extrema pobreza e marginalidade em que as pessoas estão fadadas a viver.

Assim o metabolismo sócio-predador capitalismo deixa morrer de fome o povo da Somália, manda e desmanda nas grandes economias mundiais e chamam de vandalismo as legítimas manifestações do povo contra essa lógica desonesta. E por isso tudo é que nós continuamos do lado daqueles que lutam contra esta lógica e repudiam qualquer movimento que busque desqualificar a reação do povo contra esta lógica desumana.

Fabiana Scoleso – 12/08/2011

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2 comentários em “Londres: um termômetro social

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