Brasil: Entre avanços e limites: as particularidades brasileiras na produção e reprodução da nossa história

Quando falamos em história imaginamos sucessões de fatos e modelos de entendimento que procuram aprisionar o conhecimento, qualificar e conceituar épocas. Poucos sabem que essa forma de compreender as sociedades acaba limitando e condicionando os verdadeiros aspectos da vida social que cada povo, cada sociedade foi capaz de construir e desenvolver.

Foram várias as vezes que conceitos foram importados e aplicados à realidade brasileira sem considerar que aqui os processos de desenvolvimento respeitavam uma particularidade impressa desde a conquista portuguesa. Conceitos como mercantilismo e feudalismo foram utilizados para explicar nossa história. Aqui em nosso país o conceito de mercantilismo precisa ser observado em nossa particularidade. Diferentemente das Monarquias européias que fizeram uso desta tendência econômica na expansão comercial dentro e fora de seu continente, aqui o bulionismo, uma de suas características não foi aplicado logo no princípio simplesmente porque os portugueses não encontraram aqui o tão esperado e sonhado ouro. Ao contrário da outra parte da América que logo supriu as necessidades da Coroa Espanhola.

Em relação ao feudalismo não chegamos nem perto de viver seus princípios. Identificados em parte por estudiosos brasileiros como Caio Prado Jr em suas obras “Evolução política do Brasil”[1] e “Formação econômica do Brasil”[2] e Jacob Gorender com “O escravismo colonial”[3], o paralelismo acadêmico realizado, fundamentalmente por Caio Prado Jr não procurou de maneira alguma qualificar um período nem suprimir as particularidades de nossa formação. Por muito tempo Caio Prado Jr. Foi rechaçado por conta de suas ponderações, mas nunca entendido como aquele que realizou os primeiros esforços acadêmicos para a compreensão da nossa realidade.

Demoramos anos para avançar no entendimento das nossas características mais peculiares. Demoramos muito e ainda temos enormes dificuldades em compreender a análise marxista das categorias sociais que precisam ser entendidas não como modelos de análise e sim como elementos que balizam e especificam os modos de produção, as forças produtivas e a força de trabalho. Marx dizia:

“Os pressupostos de que partimos não são pressupostos arbitrários, dogmas, mas pressupostos reais, de que só se pode abstrair na imaginação. São os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de vida, tanto aquelas por eles já encontradas como as produzidas por sua própria ação. Esses pressupostos são, portanto, constatáveis por via puramente empírica. (…). Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou pelo que se queira. Mas eles mesmos começam a se distinguir dos animais tão logo começam a produzir seus meios de vida, passo que é condicionado por sua organização corporal. Ao produzir seus meios de vida material, os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material”.[4]

Desta forma, Marx definiu os caminhos de entendimento das sociedades demonstrando que só é possível um entendimento quando se busca as formas específicas de desenvolvimento. No Brasil a escravidão tem muito a dizer de nossa formação social assim como a forma específica de colonização e até mesmo de nossa Independência condicionaram o desenvolvimento de uma aristocracia que rompeu os séculos sendo sustentáculo político e econômico do Brasil. Mesmo com a independência no século XX e com o sucesso das lavouras canavieiras no Rio de Janeiro e Oeste Paulista, a modernização das relações sociais e o progresso econômico, urbano, o surgimento das primeiras indústrias e a introdução das estradas de ferro não alteraram a base da economia nacional calcada na agro-exportação nem transformou o campo político num ambiente que verdadeiramente representasse o povo e os interesses gerais do país.

No Brasil a palavra “Revolução” também adquiriu uma nova conotação. Muitas vezes representou uma luta de interesses de grupos políticos e economicamente importantes da sociedade sem sequer absorver as mazelas e os interesses das outras classes. Não queremos dizer com isso que os movimentos sociais que aqui ocorreram não tiveram importância. Pelo contrário. Os movimentos do século XIX, o surgimento das corporações de ofício, o anarco-sindicalismo e todas as outras formas de organização social foram fundamentais na contestação da ordem vigente. Avançaram em muitas questões, mas também sofreram com os limites impostos pelo Estado e por sua própria formação histórica. Por isso muitas das mazelas, dos avanços e, fundamentalmente dos limites brasileiros se processam por conta de nossa formação, das relações de poder e do formato econômico vigente durante anos nessas terras. Citando novamente Marx: 

“…não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou representam, tampouco dos homens pensador, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir daí, chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida”.[5]

Muito sobre essa particularidade brasileira e sobre estes aspectos formativos J. Chasin contribuiu. Suas análises e sua objetividade analítica deram as principais perspectivas sobre os imperativos imanentes do seu caráter subordinado apesar dos estágios de “modernização” alcançados nos séculos XX e XXI. Para J. Chasin evolução e progresso nacional são considerados dados positivos de desenvolvimento, mas, na particularidade brasileira, escondem a perspectiva da subordinação, da miséria e da exclusão, veja:

“Desprovido de energia econômica e por isso mesmo incapaz de promover a malha societária que aglutine organicamente seus habitantes, pela mediação articulada das classes e segmentos, o quadro brasileiro da dominação proprietária é completado cruel e coerentemente pelo exercício autocrático do poder político. Pelo caráter, dinâmica e perspectiva do capital atrófico e de sua (des)ordem social e política, a reiteração da excludência entre evolução nacional e progresso social é sua única lógica, bem como, em verdade, há muito de eufemismo no que concerne à assim designada evolução nacional”.[6]

Apesar de ter sido um breve retrato da formação brasileira, a idéia inicial deste texto procurou salientar que a lógica específica da formação brasileira não pode ser aprisionada por nenhum modelo de entendimento ou por uma idéia ou modismo historiográfico. A dimensão brasileira precisa ser compreendida por ela própria e apreendida com o esforço da pesquisa e dos estudos acadêmicos. Hoje comparamos o país com potências econômicas. Temos visto a crise econômica, a crise do senado e uma série de problemas sociais que o Brasil não consegue solucionar. Muito de tudo isso se deve a uma história que pouco conseguimos e conseguiremos mudar. Para minimizar os resultados da nossa história é preciso, primeiramente, conhecê-la e, além disso, em sala de aula, promover a reflexão, a conscientização e a prática de novas idéias e atitudes.

Profª Drª Fabiana Scoleso – Professora colaboradora do curso de pós-graduação em História, Sociedade e Cultura da PUC-SP


[1] PRADO JR, Caio. Evolução política do Brasil. 2 ed. Brasiliense: São Paulo, 1947.

[2] PRADO JR, Caio. História econômica do Brasil. 14 ed. Brasiliense: São Paulo, 1974.

[3] GORENDER, Jacob. O escravismo no Brasil. 2 ed. Ática: São Paulo, 1978.

[4] MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Boitempo: São Paulo, 2007. P. 86

[5] Idem Ibidem, p. 94.

[6] CHASIN, José. A sucessão na crise e a crise na esquerda. In: Revista Escrita Ensaio: São Paulo, nº 17/18, p. 49.

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