AS FORMAS TECNOLÓGICAS E ORGANIZACIONAIS DAS INDÚSTRIAS AUTOMOBILÍSTICAS DO ABC PAULISTA E O SINDICATO DOS METALÚRGICOS: AS NOVAS RELAÇÕES ENTRE CAPITAL E TRABALHO NA DÉCADA DE 1990

Fabiana Scoleso

Diante da fragilidade das lutas sociais e dadas as características das poucas que ocorrem, o contexto reivindicativo dentro da ordem do capital e sob a temática da inclusão não chega aos pés do potencial imanente que estiveram presentes no interior do movimento sindical do ABC na década de 70 e que fizeram por questionar não somente a lógica perversa do capital instituído no país como também toda a estrutura montada pela ditadura militar que garantia sua produção e reprodução através, principalmente, do arrocho salarial.

Pela democracia burguesa da ordem e do direito por ela estabelecidos e regulados, o mundo do trabalho precarizou-se fazendo às vontades do grande capital. Aos trabalhadores coube o ônus deste processo e as mazelas não somente por conta da falta de proteção social, característica da desregulamentação das regras trabalhistas, mas principalmente das problemáticas que vieram embutidas no processo de reestruturação produtiva, nos níveis da empresa, dos empresários e do governo originados pelo processo da Abertura Econômica do Governo Collor.

Cabe agora buscar alternativas, mas elas só podem ser encontradas se precedidas de estudos que possam caracterizar os avanços e os limites impostos ao sindicalismo brasileiro.

Diante de suas particularidades de formação e que se expressou ao longo de várias décadas como um organismo em formação diante de uma via hipertardia de formação do capitalismo brasileiro, o sindicalismo atuou dentro das possibilidades e das restrições que logo foram impostas pelo governo Vargas na década de 30. Uma classe operária que estava em formação e que logo foi contida pelas leis que regulamentaram o trabalho e o sindicalismo no país. Mas chegou um tempo em que as possibilidades de ruptura e seu largo teor reivindicativo fizeram a diferença. Na década de 70, mais precisamente à partir de 1978, a classe operária e o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema deram provas de que um movimento unificado, consciente e, mais do que isso, com a classe operária realmente envolvida em todas as etapas de manifestação, poderia ser capaz de abalar as estruturas da ditadura militar e denunciar seus pilares constitutivos. Ao entender e provar a superexploração engenhosamente orquestrada pela ditadura para favorecer o grande capital, a classe operária mostrava sua força e, principalmente, assumia pela primeira vez o campo da possibilidade de colocar em xeque o sistema ditatorial do capital atrófico.

Operando diretamente com as bases, o sindicalismo metalúrgico oriundo do ABC Paulista provou sua capacidade organizativa. Entretanto o “novo”, “autêntico” e “original” sindicalismo acabou, em seu processo, sucumbido pelo “velho”, pelo ardil politicista que deslocou o legítimo movimento de massas para o campo político-partidário o que provocou a perda de potência e, acima de tudo, deixou de ser a possibilidade de contestação, reivindicação e luta para atuar no interior do jogo partidário. Ao se inserir no projeto da “Redemocratização” burguesa, o movimento acabou cooptado e submetido aos liames da organização política burocrática burguesa.

Ao mudar de movimento de massas para a atuação partidária, perdeu o seu teor mais original e deixou de ser a possibilidade imanente de encaminhar uma profunda ou significativa alteração nas formas do Estado brasileiro. Permitiu um rearranjo de forças que ocasionou a permanência de estruturas e personagens que compuseram o nosso período ditatorial. Ao longo da década de 80, muitos foram os movimentos sociais na cena brasileira. Mas fragmentados e conduzidos por lideranças que objetivavam as fileiras do governo, pouco avançaram em termos de organização e pouco conseguiram em termos de mudanças estruturais.

Apesar de bancários, professores e engenheiros terem assumido importantes paralisações ao longo dos anos 80, mudanças efetivas não foram realizadas, nem as efetivas mudanças na legislação sindical avançaram (apenas em alguns poucos aspectos), e com isso, o sindicalismo brasileiro acabou ficando à mercê do governo estabelecido após o processo de redemocratização, de orientações Cutistas, da CGT e, ao seu tempo, da Força Sindical. Não estamos aqui dizendo que estas organizações não tiveram importância na cena sindical brasileira, mas sim apontando que elas enfrentaram inúmeros problemas e cisões ao longo da década que fragilizaram sua atuação incorporando a luta política como estágio das negociações da classe trabalhadora. Os resultados deste tipo de atuação podem ser vistos na década seguinte, quando estas organizações e os sindicatos, principalmente o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, começam a enfrentar dificuldades no encaminhamento de suas reivindicações diante do novo rearranjo de forças do capital e, principalmente da nova estrutura política que se desenrolava.

Por isso, quando o capital brasileiro voltou a se reorganizar a partir da Abertura Comercial e, consequentemente no desencadeamento da reestruturação produtiva no setor automobilístico, o mais dinâmico e a base de sustentação da economia nacional ocasionando uma profunda modificação no mundo do trabalho, o sindicalismo não foi capaz de dar uma resposta rápida a tais transformações, optando, inclusive, por um sindicalismo de negociação.

Coube a este sindicalismo encontrar alternativas para “sobreviver” a estas mudanças adotando o mecanismo da negociação a fim de evitar o fechamento de fábricas e uma grande quantidade de demissões. Aceitou a Câmara Setorial (Canal de negociação instituído no Governo Sarney) como possibilidade, caminho de diálogo com empresários e governo, mas evitou o confronto direto e os questionamentos em torno da lógica do sistema. Como alternativa adotou da recapacitação de trabalhadores e Programas para os Jovens em busca do primeiro emprego a fim de reconduzir e conduzir os trabalhadores para o trabalho formal. Trouxe os jovens e as mulheres para discutir sua inclusão no mercado de trabalho, mas evitou discutir as novas formas de apropriação do trabalho pelo capital e a exigir mudanças ou maior cuidado por parte do governo.

Compreendemos que as mudanças são inevitáveis. A universalização das forças produtivas chegou a seu ápice. A transnacionalização de tecnologia, de formas de gestão e produção avançou e hoje estão presentes com força total principalmente em países que a fragilidade do estado e a mão-de-obra abundante e barata são moedas preciosas. Hoje o parque industrial brasileiro é um dos mais modernos do mundo. Conta com células de trabalho e tecnologia igual a qualquer país de primeiro do globo terrestre. Mas as formas como esta universalização é assumida pela realidade brasileira é que evidenciam as fragilidades e os problemas do país. A universalização das forças produtivas encontra, portanto um cenário particular para seu desenvolvimento. O universal se apropria do particular e o resultado deste processo é objetivado no nível das discussões sindicais, na fragilidade em que estão sendo colocadas nossa legislação trabalhista e os resultados que colhemos destas relações: sucumbidos aos desígnios do capital o desemprego, a precarização e o subemprego aparecem como alguns de seus frutos.

É sob esta perspectiva que a análise da década de 90, sobre estes aspectos, é fundamental e aponta como urgente o entendimento desta via particular. Queremos salientar que os trabalhos realizados sobre este período foram importantes na compreensão da necessidade de trabalhar este viés e no fortalecimento da idéia de escrever sobre a particularidade de constituição do capitalismo brasileiro e seus desdobramentos até o período já descrito.

Diante de tantas transformações nas formas de produção e nas estratégias de vendas, as perguntas que ficam são: Quais foram os resultados destes investimentos e do avanço da indústria automobilística no Brasil para os trabalhadores e para o movimento sindical? Quais os alcances circunscritos no mundo do trabalho através das ações reestruturadoras? Este movimento de inserção de novas tecnologias e novas formas de gestão da mão-de-obra além do alcance internacional dos produtos aqui montados significa a exclusão do trabalho e do trabalhador neste processo?

As conseqüências de tais mudanças ocorreram principalmente no campo do trabalho e do emprego quando da substituição de um grande número de empregados e quando da implantação de novas formas de gerenciamento da mão-de-obra além da inserção de novas tecnologias e da agregação de elementos que compõem os chamados padrões de qualidade internacionais. Esta primeira fase da década de 90, que corresponde a Abertura Comercial promovida pelo então presidente da Republica Fernando Collor de Mello, foram desenvolvidos programas de incentivo à capacitação industrial ocasionando uma nova formatação para a produção brasileira e adequando o contexto produtivo nacional para os caminhos da globalização.

Em terras brasileiras a reestruturação produtiva seguiu um ritmo mais lento durante a década de 80 adotando apenas parcialmente novas tecnologias o que não significou uma mudança abrupta e imediata nas esferas das relações entre capital e trabalho. Além disso, a década de 80 no Brasil pode ser pensada pelas suas singularidades. Em voga estavam problemáticas em torno da distensão política da ditadura militar e o processo de democratização que chegaria ao seu auge em 1985. Enquanto isso as indústrias automobilísticas brasileiras, setor sempre privilegiado da economia nacional, ainda colhia frutos positivos no mercado interno e ainda não vivia uma fase de esgotamento do seu modelo produtivo não só pelas circunstâncias nacionais, mas também por ter sido uma década de reestruturação em larga escala do capital internacional nos países considerados centrais (Europa, Estados Unidos da América). Nestes países as técnicas japonesas de produção começaram a ser aplicadas em larga escala e em caráter de urgência para deter as conquistas de mercados iniciada pelos asiáticos. Produção controlada, gerenciamento horizontalizado, terceirização e exportação passaram a estar na ordem do dia.

O peso da indústria automobilística brasileira na constituição econômica e política da sociedade nos últimos 50 anos explicam a importância do tema e do entendimento do processo de reestruturação produtiva e gerencial ocorridos na década de 90. Diante das formas tradicionais de produção em massa e de gestão taylorizada do trabalho é sempre importante salientar que este setor foi produtor de grande massa operária responsáveis por imprimir atuações significativas de reação contra a exploração e ajudando a formular tendências sindicais e intersindicais de expressão.

No caso da América Latina não tardaria a chegada desta tendência reestruturadora, principalmente a partir de Collor, no Brasil, e Menen, na Argentina. O princípio da década de 90 traria consigo uma história bastante respeitável dos movimentos sociais, operário e sindical: a afirmação do PT como partido operário e da CUT como central de planejamento e discussão das questões em torno do trabalho e do emprego. Mas nem todas as conquistas ou tantas histórias de lutas contra os patrões pouparam os trabalhadores de seu esvaziamento enquanto classe.

Com a vitória de Collor nas eleições de 1989 a ação governamental voltava-se para as mudanças na chamada Política Industrial através da Abertura Comercial, da concorrência com o mercado externo e da internacionalização da economia brasileira. Isso derrubaria de vez, na visão do governo, o suposto atraso brasileiro e encaminharia o país rumo à modernização e adesão de padrões internacionais de produção. Apesar de promover inúmeros programas de capacitação tecnológica e promovendo incentivos financeiros e fiscais para uma rápida reestruturação, o Estado cada vez mais partia para a sua própria reestruturação e de seu papel como mediador. Esse papel neutro do Estado brasileiro permitiu a rápida expansão e reorganização do capital ao tornar as regras de mercado mais abertas tirando de sua responsabilidade os princípios de gestão das normas gerais do mercado, mas investindo e incentivando, interferindo e organizando esta nova fase da economia nacional.

Isto propiciou uma nova geografia econômica ao assumir um novo papel e, redefinindo as estruturas, os métodos e procedências do capital este Estado auxiliou as empresas a reorganizarem seus papéis, seus espaços, redimensionando desenhos industriais, organizando a produção eliminando postos de trabalhos e setores de produção, dando origem ao “mercado da terceirização” etc. e, por fim desarticulando o movimento operário e sindical.

Além de todas as estratégias articuladas no plano da produção e do gerenciamento a ameaça constante das empresas abandonarem o ABC também foi assunto recorrente nas pauta desta década. Por conta dos inúmeros incentivos fiscais dados pelos governos estaduais e mão-de-obra mais barata, muitos fabricantes optaram por implantar novas empresas no Nordeste e Sul do país deixando de investir no desenvolvimento dos setores já existentes no ABC Paulista. Neste contexto entra a temática da logística. Nas décadas anteriores era estratégico que as montadoras de automóveis e as empresas de autopeças estivessem próximas formando um conglomerado industrial como foi o caso do ABC e até pela proximidade que o local tinha com a capital paulista e com o porto de Santos. Como muitas etapas da produção foram terceirizadas passou a ser de responsabilidade dos contratados a fabricação e entrega de peças para qualquer lugar do país e a manutenção dos contratos entre as empresas depende da regularidade e eficiência destes parceiros. Portanto, hoje, não importa onde as empresas estão localizadas, se perto ou longe de capitais e portos importantes. Mas do ponto de vista do movimento operário e sindical isso gera uma profunda desarticulação de classe, consciência de classe e atuação das categorias operárias.

De certo todas as transformações ocorridas nas indústrias automobilísticas do ABC, seus desdobramentos e na política implantada pelo governo Collor se revelaram num duro golpe para o Sindicato. Ele não conseguiu se reestruturar na mesma velocidade que o capital industrial do país.

O sindicalismo de classe e reivindicativo dos anos 50, 60 e 70 foi, ao tempo, sendo substituído por um sindicalismo de cúpula e politicista. Ao ser pego no contrapé este sindicalismo experimentou uma fase de imobilidade, de incapacidade de articulação com as massas e pouco poder contestatório. Atuou dentro da lógica e dos limites impostos pelo capital ao qual sua única estratégia foi sobreviver em meio a ela.

Ao adotar esta nova perspectiva o Sindicato se institucionalizou e se afastou dos reais interesses da classe trabalhadora. Desenvolveram em sua sede programas de capacitação e recapacitação, aglutinou em seus espaços discussões de gênero, abriram grupos para os jovens, mas atuou somente na perspectiva da sobrevivência e não mais da luta emancipatória.

Ao querer se fazer presente no jogo partidário e burocratizado, o sindicalismo combativo do ABC Paulista acabou subordinando-se e adotando a estratégia da ação dentro do sistema na tentativa de sobreviver à ordem do capital.

Mas o Estado também estava reestruturando seu papel de mediador e, ao adotar o rumo neoliberal abriu as portas do país para uma disputa interna desigual: multinacionais X indústria nacional X trabalhadores. Esse processo de despolitização da economia brasileira na década de 90 tornou as regras do mercado mais abertas e tirou da sua responsabilidade o princípio da gestão das normas gerais de controle do mercado, redefinindo seu papel nesta nova sociedade. Fica evidente seu descompromisso social quando do início das primeiras privatizações propalado pelo Estado como forma de modernizar o país e torna-lo mais competitivo.

A eliminação de certos setores da produção gerou o surgimento de diversas empresas de caráter terceirizado que alimentavam a produção autonomamente, contribuíam para a diminuição dos postos de trabalho modificando as estruturas nos níveis de gerência, assim como a substituição dos estoques pelos sistemas informacionais de produção que garantiriam às indústrias uma estrutura produtiva capaz de alimentar o mercado interno e externo com alta tecnologia, produtividade, qualidade e menos desperdiço com um ingrediente a menos: trabalhadores.

Mas claro que as estratégias gerenciais foram aplicadas no setor de recursos humanos: a substituição de trabalhadores quase braçais por funcionários mais novos e mais qualificados também foi fundamental neste processo. Nos mecanismos de gerenciamento e discussão foram criadas as CIPA’s que, formadas por estes novos funcionários (muitos com pouca experiência sindical e outros jovem demais para lembras das lutas históricas do sindicato) poderiam promover discussões no interior das fábricas e resolver os problemas por lá mesmo. Assim os sindicatos perderiam seu poder de articulação frente aos operários como também, com o tempo, o esvaziamento sindical aconteceria em caráter ainda mais preocupante.

Diante deste quadro o Sindicato não ficou alheio a estas mudanças e ameaças. Ele também tentou se rearticular diante da perspectiva da reestruturação produtiva, da terceirização, de temas como a empregabilidade e descentralização. No entanto qual postura adotou para assumir a discussão destes temas?

De certo todas as transformações ocorridas nas indústrias automobilísticas do ABC e na política implantada pelo governo Collor se transformaram num duro golpe para o Sindicato. Ele não conseguiu ser tão rápido nas mudanças como foi o processo de reorganização do capital industrial no país. O sindicalismo de classe e reivindicador praticado de maneira tão sofrida, mas unida dos anos 60 e 70 foi deixado de lado. Ao ser pego no contrapé esse sindicalismo adotou posturas muito diversas daquelas deixadas como exemplos nas décadas anteriores. Vale lembrar que, diante das qualidades nos padrões das discussões e nas formas de negociação das condições de trabalho e remuneração realizadas desde o final da década de 70 no ABC, pela postura de sindicalismo propositivo adquirido através de tantas experiências assim pela capacidade política de seus movimentos, é fundamental entender a perda de seus atributos diante das políticas adotadas pelo governo, diante da implantação de novas formas de gestão e pela opção do sindicato em atuar como mero negociador.

 Esse novo “novo sindicalismo” praticado nos anos 90, acrítico e de negociação, aceitou dançar a mesma música dos patrões. E ao abandonar a luta mais ostensiva deixavam-se de lado as perspectivas emancipatórias, a luta pelo socialismo, a luta pela emancipação do gênero humano operando na mesma linha da “social-democracia”. Este sindicalismo não procurou uma nova via de enfrentamento, preferiu não contrapor e, muitas vezes, andaram na mesma direção dos patrões rumo a acordos e negociações coletivas de caráter bastante frágil.

Ao adotar esta nova perspectiva de luta o Sindicalismo se institucionalizou e também se afastou dos reais interesses da classe trabalhadora. Ao querer se fazer presente no jogo partidário e burocratizado, o sindicalismo combativo oriundo do ABC Paulista acabou subordinando-se e adotando a estratégia da ação dentro da ordem. Seus caminhos de luta agora são desenvolvidos pela ordem do mercado e do capital Com a adoção de políticas de cunho neoliberal a abertura comercial e a internacionalização mudaram as regras da economia brasileira, principalmente pelo fato de que a Abertura Econômica produzida pelo governo de Fernando Collor de Mello e pela Ministra Zélia Cardoso de Melo, aprofundou o processo de introdução de novas tecnologias e gestão da força de trabalho levadas à cabo pelas indústrias automobilísticas brasileiras como já dito acima.

A articulação política tinha como pressuposto reorganizar o mercado interno e torná-lo competitivo no mercado externo. Em contrapartida a elaboração técnica da reestruturação produtiva deixou de lado o caráter humano presente neste processo: os trabalhadores metalúrgicos. Com a adoção destas novas medidas estratégicas no campo da produção e da gestão, os debates se estenderam ao campo da desregulamentação do mercado de trabalho, e o tema “flexibilização dos contratos e das leis trabalhistas” entraram, também, na pauta de discussão.

As consequências da implantação deste novo modelo neoliberal ocasionaram inúmeras transformações sociais como a precarização da mão de obra, a informalização do trabalho e o aumento crescente do desemprego no país assim como provocou alterações de ordem teórica e prática nas atividades desempenhadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

O mercado de trabalho sofreu um grande impacto provocando uma grande fragmentação dos trabalhadores em torno das questões que muitas vezes foram tratadas coletivamente no Sindicato. A diminuição da representatividade das lideranças sindicais no interior das empresas e do processo de terceirização modificou as estratégias de luta sindical. A dificuldade da mobilização da base metalúrgica ao longo da década de noventa pode ser vista através da redução do número de greves e da qualidade das poucas paralisações que ocorreram (número de participantes, temática, duração e extensão).

O aprofundamento deste contexto se dá pelo processo de investimentos na automação do processo produtivo, na utilização de CNC (Controles Numéricos Computadorizados), computadores e sistemas CAD/ CAM que assessoram o limite e os estoques nas empresas e terceirizadas, a implantação de novas celular de trabalho, a adoção de programas de melhorias contínuas e a aplicação do just-in-time e do kanbam. Ao se redefinir os contornos do trabalho nas indústrias metalúrgicas do ABC criou-se um novo perfil de trabalhador na região: exigência de escolaridade/ qualificação, novos critérios de seleção e recrutamento foram implantados, alteração na política e na gestão das empresas (gerenciamento participativo), nova estrutura de cargos e salários, além dos programas de participação nos resultados.

Através da terceirização, as empresas se reestruturaram no intuito de eliminar alguns setores produtivos para operar redução de custos. Ainda assim as empresas terceirizadas também foram obrigadas a remodelar-se já que só seria admitido como fornecedores das marcas se cumprissem todos os aspectos de qualidade internacional. Até mesmo setores como segurança, transporte e alimentação sofreram mudanças e passaram a ser exercidos também por empresas terceirizadas.

Diante desta nova realidade o enfraquecimento do movimento sindical se edificou, em princípio, pela fragmentação da unidade que outrora foi a grande estratégia de confronto com governo e empresários. A diminuição do ímpeto grevista e as dificuldades que se processaram na mobilização dos trabalhadores são sinais claros da profunda alteração que predomina no decorrer da década de 90. O discurso pela negociação com o empresariado e com o governo passou a ser a única arma possível para as lideranças neste momento.

Assim, diante da falta de uma estratégia de confronto frente às profundas transformações ocorridas no país a CUT (Central Única dos Trabalhadores) logrou uma intensa dificuldade em assumir novas posições por conta do aprofundamento das divergências internas e na dificuldade em ser o organismo centralizador de idéias, da manutenção da unidade entre os sindicatos e na condução das campanhas salariais e negociações com o patronato.

Interessante observar que o Sindicato não se preocupou em também aderir ao processo de reorganização das suas estratégias de combate frente a reestruturação do capital. Claro que não podemos esquecer que no caso do sindicalismo brasileiro a reorganização esbarra na sua carga ideológica. Mas por que o sindicalismo, principalmente aquele oriundo e histórico do ABC Paulista, não conseguiu fazer projeções e entender que também necessitava de ajustes?

Para nós, apesar do processo de fragilização e perda do poder de barganha vivido pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC nos últimos anos, sua ação não aponta para uma crise irreversível tampouco profetiza o desaparecimento desta forma de organização dos trabalhadores, pois o sindicato, apesar da sua atuação de coadjuvante, conseguiu, ainda assim evitar maiores perdas através dos acordos firmados diretamente com os empresários. Apesar de ser caracterizada em nosso estudo como uma estratégia defensiva, indica uma pequena reação diante da reestruturação financeira e produtiva.

Nesta perspectiva iremos abordar a participação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC nas negociações, primeiro dentro das Câmaras Setoriais, através dos dois acordos automotivos realizados em 1992 e 1993. Com o fechamento das Câmaras e adoção do Novo Regime Automotivo 1995/96 já no governo F.H.C. vamos analisar como se portou o Sindicato diante da descentralização das indústrias automobilísticas na segunda metade da década de 90 e no processo de terceirização.

 Para isso foram pesquisados inúmeros materiais do Sindicato e da subseção do DIEESE como elementos fundamentais para se compreender o período, assim como inúmeros documentos do IPEA e do Ministério da Ciência e Tecnologia que contém portarias, decretos e pesquisas de desenvolvimento setorial referentes a década de 90.

Aqui estão apontadas apenas algumas considerações que serão debatidas e aprofundadas posteriormente. As referências abaixo fazem parte do contexto teórico do trabalho que está em processo de desenvolvimento. Em termos metodológicos tratamos os dados pesquisados fazendo a análise imanente do material selecionado buscando, através das fontes, compreenderem o complexo de complexos existentes na relação: governo X indústrias automobilísticas X Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na década de 90 que ocasionou na adoção de novas ações e reações diante da reestruturação produtiva no Brasil resultando num sindicalismo com um novo perfil de luta. Perfil este que deixa de ser a luta contra o capital e passa a ser a adequação à lógica do sistema.

 

REFERÊNCIAS:

ALVES, Giovanni. O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: Boitempo, 2000.

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo,

ARAÚJO, Ângela. (org). Do corporativismo ao neoliberalismo: estado e trabalhadores no Brasil e na Inglaterra. 2 ed. São Paulo: Boitempo, 2002.

ARBIX, Glauco. Uma aposta no futuro: os primeiros anos da câmara setorial da indústria automobilística. São Paulo: Scritta, 1996.

ARBIX, Glauco. Inovar ou inovar: a indústria brasileira entre o passado e o futuro. São Paulo: Papagaio, 2007.

COMIN, Alexandre. De volta para o futuro: política e reestruturação industrial do complexo automobilístico nos anos 90. São Paulo: Cebrap/Annablume/Fapesp, 1998.

BOITO JR, Armando. O sindicalismo de estado no Brasil: uma análise crítica da estrutura sindical. São Paulo: Unicamp, 1991.

DAGNINO, Evelina. (org). Anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1996.

SCOLESO, Fabiana. As formas políticas e organizacionais do “novo sindicalismo”: as paralisações metalúrgicas de 1978, 1979 e 1980 no ABC Paulista. Mestrado em História: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2003.

SANTANA, Marco Aurélio, RAMALHO, José Ricardo. (orgs). Além da fábrica: trabalhadores, sindicatos e a nova questão social. São Paulo: Boitempo, 2003.

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