Após 30 anos, Lula volta ao Sindicato dos Metalúrgicos

Frederico Rebello Nehme 

Do Diário do Grande ABC

No próximo dia 19, Luiz Inácio Lula da Silva tem um encontro marcado com as próprias origens, que, para uns, ele abandonou e, para outros, ainda preserva. O presidente da República será o personagem principal de uma cerimônia em São Bernardo que comemorará os 30 anos da posse do Baiano, como era chamado pelos amigos, na presidência do então Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema.

Ao assumir a liderança dos metalúrgicos há 30 anos – em 19 de abril de 1975 –, Lula e seus companheiros de diretoria começaram a estabelecer um novo modelo de sindicalismo no Brasil, sob um cenário que, no plano político, era de ditadura, e, no econômico, colhia os derradeiros frutos do chamado “milagre” deflagrado pelos militares no início da década.

O evento do dia 19 está marcado para a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Estarão presentes pelo menos 16 ex-sindicalistas, de uma diretoria originariamente formada por 23. Articulada pela atual diretoria do sindicato, a participação do presidente Lula na cerimônia já está na agenda oficial do presidente, segundo informou a assessoria da Presidência da República. Segundo o secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Tarcísio Secoli, integrante da comissão que organiza o encontro, o evento terá uma estrutura simples. “Estamos prevendo um encontro com poucas solenidades, com a fala do atual presidente do sindicato (José Lopez Feijóo) e do presidente Lula. Também vamos aproveitar essa oportunidade para reunir novos sindicalistas, mostrando melhor a nossa história, nossos antecessores na luta sindical”, afirma.

Feijóo, presidente do sindicato, acredita que a data comemorativa coincide com um período em que o sindicalismo brasileiro pode novamente sofrer profundas mudanças em sua estrutura, com a reforma sindical. “Esse evento fará referência a um marco muito importante para o Sindicato dos Metalúrgicos e para a história do país. Será oportuno lembrar – às vésperas da aprovação de uma reforma que mudará o sindicalismo praticado atualmente no Brasil – um sindicalismo que revolucionou a forma de atuação dos sindicatos da época”, diz.

O grupo político que assumiu em 1975 ganhou destinos distintos. Alguns entraram na vida política – como os que participaram do movimento sindical ao longo das décadas de 70 e 80 –, outros abriram pequenos negócios e outros ainda continuaram trabalhando em suas indústrias até se aposentarem. O contato entre os ex-diretores é freqüente, apesar de alguns deles terem se afastado do grupo.

Nos últimos dois meses, entretanto, os encontros têm acontecido periodicamente, por conta da data comemorativa. “Esse foi um momento muito importante na vida sindical e política do Brasil. Não podemos deixar de ignorar esse período, que acabou gerando o surgimento do PT, da CUT, e reforçou a própria luta pela redemocratização do país. Queremos fazer uma homenagem não apenas ao Lula, mas a todos os diretores do sindicato que participaram desse processo”, afirma Djalma Bom, ex-diretor, de 1975 e 1978, ex-vice-prefeito de São Bernardo e ex-deputado federal pelo PT. Um dos organizadores do encontro, ele afirma que o objetivo será criar um “choque de emoções”. “Queremos relembrar nossa difícil jornada ao longo dos anos, todo o período em que lutamos pelos direitos dos trabalhadores”, afirma.

Ambiente – O clima tenso dentro e fora das fábricas fazia com que o “recrutamento” de sindicalistas fosse uma tarefa difícil porque os trabalhadores tinham receio do envolvimento político, lembra Rubens Teodoro de Arruda, o Rubão, vice-presidente da diretoria eleita em

1975 e em 1978. “Nosso trabalho era muito arriscado. Ficava difícil conseguir pessoas dispostas a integrar a diretoria do sindicato. Os militares estavam presentes em todas as grande empresas. Existiam funcionários de diversos setores que passavam informações para o Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), inclusive mentiras sobre nós”, afirma.

Embora atualmente o contato seja quase nulo entre os ex-diretores do sindicato e Lula, os encontros eram freqüentes até a posse do presidente da República, segundo João Justino da Silva, o Janjão, integrante do Conselho Fiscal na diretoria de 1975 e que participou da junta de intervenção no sindicato em 1980. “Sempre mantive muito contato com o Lula, desde cedo. Até o ensinei a dirigir. Depois do sindicato, a gente se encontrava às vezes para conversar e lembrar esse tempo, mas agora esse encontro terá um significado especial, por causa da posse dele como presidente da República”, afirma.

Início – Lula já era diretor do sindicato na chapa eleita em 1972, quando Paulo Vidal era presidente. Depois do mandato iniciado em 1975, foi reeleito com 97% dos votos válidos para o mandato de 1978, que se encerrou com a intervenção no sindicato pela ditadura militar e a cassação da diretoria, em 1980.N as duas ocasiões, Lula foi eleito em chapa única. Em 1975, a candidatura obteve 91% dos votos válidos, e contava com apoio político de Vidal, presidente desde 1969 do sindicato, que também cogitou apoiar para presidente os nomes de Rubens Teodoro de Arruda, oRubão, Nelson Campanholo e Antenor Biolcatti.

Já em 1978, Lula renovou metade da diretoria anterior, mas manteve líderes como Rubão, Djalma Bom, Devanir Ribeiro e Nelson Campanholo. Ao mesmo tempo, introduziu novos dirigentes na direção, como Gilson Menezes, anos mais tarde eleito prefeito de Diadema pelo PT. Diferentemente da cerimônia de posse de 1975, que teve a presença de centenas de pessoas, estima-se que à posse de 1978 compareceram 10 mil trabalhadores.

Conjuntura elevou Lula à liderança

Frederico Rebello Nehme

Do Diário do Grande ABC

A ascensão de Lula como líder sindical não aconteceu unicamente por mérito próprio, na opinião de pesquisadores do movimento sindical. Segundo eles, o contexto político e econômico da indústria no Grande ABC e do país foram fatores determinantes nesse processo, apesar da grande capacidade de comunicação de Lula e da empatia do então dirigente com os trabalhadores.

O surgimento do chamado novo sindicalismo” se deu num período em que a região possuía grande quantidade de operários. Na ocasião, meados dos anos 70, a base do sindicato era de mais de 200 mil metalúrgicos, somente em São Bernardo e Diadema – atualmente, nas sete cidades da região, é de aproximadamente 140 mil.

Para Maurício Broinizi Pereira, professor de história contemporânea da PUC (Pontifícia Universidade Católica), que participou de pesquisas sobre a memória sindical operária nas décadas de 80 e 90, a forte presença da indústria automotiva na região foi determinante. “Toda a base metalúrgica no ABC paulista já vinha sendo construída desde os anos 50. A indústria automotiva cresceu muito na região, com ampla contratação de trabalhadores jovens, que não se sentiam representados pelo sindicalismo praticado até então”, afirma.

“O país estava saindo do ‘milagre econômico’, com taxas de crescimento de 11% ao ano, as mais elevadas da história econômica recente, enquanto a renda era cada vez mais reduzida. Tivemos uma política de arrocho salarial intenso, e as categorias não podiam negociar reajustes superiores aos patamares estipulados pelo governo federal. Isso gerou uma insatisfação natural, que acabou se refletindo na mobilização”, acrescenta José Dari Krein, pesquisador do Cesit (Centro de Estudos de Economia Sindical e do Trabalho), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

O perfil de Lula, entretanto, facilitou a penetração do novo líder entre os trabalhadores no Grande ABC. Funcionário da Villares, era nordestino, novo na região e falava de maneira simples – desenvolveu a oratória posteriormente, na prática. Adiciona-se a isso certo distanciamento, num primeiro momento, que Lula manteve de grupos de esquerda muito presentes nos sindicatos da região. Influenciado pelo irmão Frei Chico – politicamente engajado no movimento político de esquerda –, Lula buscou maior aproximação com os trabalhadores das montadoras e metalúrgicas, passando a realizar assembléias nas portas das fábrica e procurando-os diretamente para discutir a política sindical.

Essa política de aproximação influenciou decisivamente os resultados que o sindicato obteve posteriormente, segundo a historiadora da PUC Fabiana Scoleso, autora da dissertação de mestrado As Formas Políticas e Organizacionais do ‘Novo Sindicalismo’: as Paralisações de 1978, 1979 e 1980 no ABC Paulista. “Essa forma de atuação rompeu definitivamente com aquela anterior a 1975, dando à figura do dirigente sindical um caráter dinâmico e político.”

Mentor de Lula não queria o PT

Do Diário do Grande ABC

Ele é considerado um dos principais articuladores da condução de Lula ao poder no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema. Paulo Vidal, hoje com 63 anos, foi presidente do sindicato entre 1969 e 1975 e secretário-geral entre 1975 e 1978, e criou a “ponte” para uma nova forma de sindicalismo. Desde 1969, ele já articulava pequenas paralisações no interior das fábricas, para reivindicação de questões pontuais. “As pequenas greves dentro das fábricas sempre aconteceram. Como os empregadores se recusavam a negociar conosco, a única maneira de abrir o diálogo era parando as máquinas”, afirma.

Vidal deixou oficialmente a atividade sindical com a eleição da diretoria de 1978, e, ainda diretor, foi eleito vereador em São Bernardo em 1976 pelo MDB. Segundo o sindicalista, por discordar da criação do PT, o afastamento das atividades do Sindicato dos Metalúrgicos foi inevitável. “Eu não concordava com a criação de um partido para os trabalhadores, mas com a defesa de seus direitos perante o capital. Na minha opinião, os trabalhadores são pluripartidários, e a criação de um partido político iria dividir a classe”, afirma.

O ex-sindicalista diz que ainda participou de algumas reuniões do sindicato depois de deixar a diretoria, em decorrência de sua experiência. “Discuti algumas campanhas salariais, mas em muitos pontos não conseguia apoio porque o discurso já estava muito politizado nesse momento.”

Entre 1983 e 1988, foi assessor do então prefeito de São Bernardo Aron Galante, e depois passou a integrar os quadros da prefeitura do município, se aposentando em 1993. Hoje, vive em Cerquilho, no interior paulista. Segundo Vidal, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema já se destacava no meio sindical desde o início da década de 1970, por causa do grande número de trabalhadores que representava. “Com certeza, a partir de 1978 as atividades do sindicato ganharam visibilidade nacional, em todos os setores da sociedade, mas antes o sindicato já se destacava. A cada ano que passava, ganhávamos mais notoriedade nos encontros de trabalhadores de outras regiões e outras categorias. Já éramos considerados um sindicato de peso, mas tudo isso foi um processo que se consolidou com os anos.”

Gráfica própria substitui mimeógrafo

Isaías Dalle

Do Diário do Grande ABC

Se dependesse apenas da vontade do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a entidade já teria um canal de TV. Um pedido de concessão repousa no Ministério das Comunicações desde o governo Itamar Franco. O desejo pareceria pretensão demais na década de 70. Naquela época, a Tribuna Metalúrgica era produzida uma vez por mês, em mimeógrafos, e tinha, muitas vezes, os títulos das reportagens desenhados manualmente. Hoje, a publicação circula de terça a sexta, com 45 mil exemplares por edição, e é impressa numa gráfica própria desde 1979.

“Eu fazia o jornal praticamente sozinho. O sindicato achava que tinha de economizar”, lembra Antonio Carlos Félix Nunes, o primeiro “faz-tudo” do jornal, por ele editado de 1971 a 1981. Félix, como é conhecido, escrevia uma coluna sobre sindicalismo no extinto Notícias Populares e, na outra metade do expediente, cuidava da publicação do sindicato.

A greve na Scania, em 78, começou a mudar o destino da Tribuna. A necessidade de manter os trabalhadores informados levou o sindicato a elaborar um suplemento que circulava diariamente. Era composto por recortes de notícias da grande imprensa, em geral com o intuito de denunciar o que os dirigentes consideravam distorções e parcialidade. “Ali, o sindicato começou a entender a necessidade de ter informação produzida por ele mesmo”, comenta Sílvio Berengani, atual editor do jornal. Tornou-se diário outras vezes, durante as grandes greves que se seguiram mas, a exemplo do que ocorrera em 78, voltou à periodicidade anterior após o fim dos movimentos.

As intervenções de 1979 e 1980 deram início ao processo de montagem da estrutura gráfica própria, que existe até hoje e é estratégica para a penetração das publicações da entidade. Para evitar que a Tribuna deixasse de circular, o sindicato criou sua Associação Cultural e Beneficente, figura jurídica usada para abrigar a redação do jornal, fora da sede principal e, portanto, longe do alcance dos interventores.

A Tribuna tornou-se definitivamente diária em 1986, quando foi montada uma equipe de jornalistas profissionais. A estrutura permitiu que o sindicato também investisse na produção de boletins com tiragens menores e sem periodicidade definida, que circulavam em circunstâncias especiais, como na ocorrência de problemas em uma determinada empresa. Na mesma época o sindicato criou a TVT, uma produtora de vídeos ativa até hoje. O primeiro “canal” de exibição dos vídeos era um caminhão de som com uma grande tela, que levava a programação para a porta das fábricas.

Companheiros deixam a militância

Frederico Rebello Nehme

Do Diário do Grande ABC

Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva ganhou projeção internacional como dirigente sindical, fundador e principal liderança do PT, deputado federal e presidente da República, a maioria dos demais integrantes da chapa eleita em 1975 para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos oscilou entre o ostracismo e a vida pública como vereador ou deputado federal. Alguns se mantiveram na vida política, como Lula, tornando-se vereadores ou deputados estaduais e federais, mas outros continuaram trabalhando em indústrias metalúrgicas ou nas administrações municipais do Grande ABC. Boa parte dos diretores, no entanto, se aposentou e se mantém afastada da atividade político-sindical.

É o caso de Djalma Bom, hoje com 63 anos, suplente do Conselho Fiscal na diretoria de 1975 e tesoureiro na de 1978. O ex-vice-prefeito de São Bernardo chegou a ser preso junto com Lula, na intervenção de 1980, e foi deputado federal (PT-SP) entre 1983 e 1987, entre outras atividades. “Mudei um pouco a minha vida. Hoje, faço curso de enquanto ele é presidente da República. A conjuntura política do país mudou muito, e de certa forma nós acompanhamos esse processo”, afirma.

Antenor Biolcatti, 2º tesoureiro dessa diretoria, após integrar o sindicato desde 1967, foi vereador em São Bernardo entre 1972 e 1988, pelo MDB, posteriormente PMDB. Com 68 anos, leva “vida de aposentado”, como define. “Hoje, bato uma bola com os meus amigos. Em 1988, decidi parar minhas atividades e descansar um pouco”, diz.

José Roberto Mori Machado, 64 anos, que era suplente da diretoria de 75, ficou no sindicato até 1978, quando saiu da Mercedes-Benz, onde trabalhava, e passou a gerenciar negócios familiares. Hoje, trabalha na administração da Prefeitura de São Bernardo, na Secretaria de Esportes. “Não tem nada a ver com metalúrgico, né?”, indaga.

O deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), 61 anos, ex-vereador pelo PT em São Paulo por 13 anos (1989-2002), é um dos representantes da parcela de ex-diretores que ainda mantêm a atividade política. “Continuo trabalhando com Lula. Antes, atuei na diretoria do sindicato, enquanto ele era presidente, e hoje, como deputado federal, canto, estudo violão e presto serviços voluntários. Quero desenvolver outros projetos. Minha contribuição para a vida política e sindical já foi dada”, afirma.

Nelson Campanholo, 65 anos, 1º secretário na diretoria de 1975, manteve uma serralheria em parceria com ex-diretores, no início dos anos 80, ajudando financeiramente metalúrgicos demitidos, inclusive o próprio Lula – de quem foi padrinho de casamento, em 1974. “Era uma forma de ajudar financeiramente os trabalhadores do sindicato e de mantê-los trabalhando”, afirma. Posteriormente, se elegeu vereador entre 1983 e 1992 em São Bernardo, chegando a ser presidente da Câmara Municipal. Hoje é gerente de Operações do transporte coletivo da Prefeitura de São Bernardo.

Já Salvador Venâncio, 56 anos, e Heleno Cordeiro Oliveira, 59 anos, são exemplos de diretores que decidiram trabalhar como metalúrgicos até a aposentadoria – ambos na Volkswagen. Heleno (diretor fiscal em 1975), atua hoje com alguma freqüencia como instrutor do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) de São Bernardo.

Fonte: Diário do Grande ABC

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